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A austeridade assassina

por Frederico Silva Leal, em 21.06.13

   Após o início da crise internacional (em 2008 com a falência da Lehman Brothers), seria legítimo um período de cortes nas despesas excessivas e restruturações no sector público devido ao alto deficit orçamental nos países da zona euro, mas obviamente nunca colocando em causa o bom funcionamento do sistema económico do país em questão. Mas infelizmente não foi isso que sucedeu, com a intervenção da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) em Portugal para negociar as condições de resgate, foram aplicadas medidas que em vez de reabilitar a economia, preferiram “arrancar o mal pela raiz”, destruindo progressivamente o sistema económico.

   Nos últimos anos têm sido aplicadas medidas destrutivas, como o aumento da carga fiscal (resultando numa diminuição da receita fiscal, e de um menor incentivo ao investimento), despedimentos em massa no sector público (aumento do desemprego, redução no PIB e aumento da despesa do estado para pagar subsídios e formações suplementares), cortes salariais (menor consumo e por sua vez menor produtividade), colocando em condições quase precárias pensionistas, desempregados e reformados. É de frisar também que nestas condições o estado acaba por investir nos estudos (como deve) em jovens que vão emigrar e trazer retorno, não ao país que neles investem, mas ao país que os acolhe.

   A meu ver seria de fácil observação que em países que dependem dos seus comércios internacionais e sem moeda própria como na zona euro, que ao se cortar no consumo de todos os países, todos estes terão resultados piores. Assim poderá ser justificado um dos motivos para a difícil e demorada recuperação das economias europeias. Tal como a não utilização da inflação para dinamizar as economias europeias, com vista a assegurar os interesses de apenas um ou outro país.

   Infelizmente, observa-se uma dificuldade em assumir uma “mea culpa”, onde o governo (que procurava ser mais rígido que a própria troika) coloca as culpas na Troika, e as instituições pertencentes nesta atiram culpas entre eles como uma “batata quente” (por enquanto apenas relativamente à Grécia). Com isto, Portugal apresenta em termos homólogos, uma variação negativa do PIB de 3,8% e uma taxa de desemprego de 17,7%.

 

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publicado às 22:04


14 comentários

De Equipa SAPO a 22.06.2013 às 11:07

Bom dia

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente

Portal SAPO

De Jeronimo Jarmelo a 22.06.2013 às 11:56

Não há maior cego que aquele que não quer ver!
O maior cego deste país é o incompetente-mor do reino : Vitor Gaspar; obviamente, apadrinhado por Passos Coelho e pelo Presidente da República!!!

De Frederico Silva Leal a 25.06.2013 às 14:56

Sem querer entrar por ataques as entidades políticas, sou de veras obrigado a concordar consigo.
Muito obrigado pelo seu comentário, e agradeciamos que fosse acompanhando o nosso Blog.

De Gaby e André a 23.06.2013 às 20:33

Muito bem visto!!

A produtividade não tem lugar num país em que não há qualquer motivação, ou reconhecimento. São cortes nas áreas da sociedade mais importantes mas também as mais fáceis de atingir. É necessário uma reestruturação, uma estratificação de prioridades pois não somos só números, somos seres humanos!!

Beijinhos e abraços orgulhosos!!!

De Frederico Silva Leal a 01.07.2013 às 10:33

Sem dúvida, há uma grande falta de sensibilidade social e de até mesmo bom senso no nosso governo. Afinal, está aos olhos de todos que a população tem "alma" e como tal não se adapta ás medidas impostas como numa folha de Excel e também sofrem com elas. O paradigma terá que ser alterado radicalmente.
Beijinho e abraço.

De Nelson Leal a 23.06.2013 às 21:39

Já foi partilhado no facebook . Sugiro que seja enviado para a Soberania do Povo, jornalspovo@telepac.mail.pt. Abraço

De Nelson Leal a 23.06.2013 às 21:44

Corrijo, jornalspovo@mail.telepac.pt

De Frederico Silva Leal a 25.06.2013 às 14:54

O link já foi enviado para o email.
Muito Obrigado.

De Arlindo Castro a 25.06.2013 às 13:16

Perfeitamente de acordo!
Basicamente a austeridade teve dois objectivos e dois campos de medidas: equilibrar as contas públicas e disponibilizar mais crédito para a economia foram os objectivos e aumentar os impostos, quer directos quer indirectos, e reduzir os custos “sociais” foram as medidas.
Não tendo a crise europeia tido uma origem financeira, era perfeitamente previsível que nunca a austeridade a iria debelar. Fiquemo-nos pelas “boas” intenções daqueles que a defenderam e outorgaram, designadamente pelo facto de, apesar de ignorantes (tanto técnica como politicamente), serem corajosos!
Agora a tónica é dada ao crescimento económico. Muito bem, diremos todos, finalmente!!!
Mas, logo de seguida, vem nova asneira: é preciso atrair investimento e, de preferência, estrangeiro! Esta gente não pensa, é completamente ignorante e, mais grave, é-o repetidamente! Quem, no seu perfeito juízo, estará disponível para fazer investimentos produtivos em países cujos custos de produção são mais elevados do que em qualquer outra parte do mundo e cujo consumo vem anualmente regredindo?
Não é mais possível escamotear a causa desta crise: a Europa conseguiu atingir, dentro dos seus limites geográficos, o topo do consumo mundial tanto em valor absoluto como per capita e, em função dessa realidade e da concorrência que ela própria desencadeia, optou por produzir uma parte significativa desse consumo fora das suas fronteiras. O resultado dessa estratégia veio a manifestar-se sequencialmente: permitiu um incremento do consumo interno e do nível de vida dos seus cidadãos (agora dito “vivendo acima das suas possibilidades”) e, consequentemente, o desenvolvimento dos países emergentes que passaram a abastecer o consumo europeu. Em sentido contrário e pela deslocalização da produção, libertou para o desemprego uma parte significativa da mão-de-obra que àquela actividade se dedicava. Esta sim é a crise europeia que atravessamos: não produzimos mas (ainda) consumimos!
Porventura alguém poderá ter dúvidas quanto a estes acontecimentos históricos? Não é esta a realidade com que diariamente nos confrontamos?
Voltemos então à economia. O crescimento económico é traduzido em valor e esse valor é um resultado da multiplicação da quantidade pelo preço.
Só poderemos infletir o curso do multiplicando “quantidade” se o mercado estiver receptivo a um incremento do consumo, o qual será (para a maioria dos bens) inversamente proporcional ao do valor do multiplicador “preço”. Sendo a economia europeia das mais concorrenciais do mundo em termos tecnológicos e altamente dependente dos mercados internacionais na compra de matérias-primas, a diminuição do preço só poderá ser atingida pela diminuição do custo salarial, com consequências inevitáveis no nível de vida dos seus cidadãos. Nestes termos, não será esta a via a adoptar consensualmente para a saída da crise!
O mesmo já não se passa com o preço; com efeito, sendo a economia europeia concorrencial dentro das suas fronteiras, o preço dos seus bens resulta inequivocamente do somatório dos diversos custos necessários para os obter (incluindo os impostos que equilibram financeiramente os orçamentos nacionais dos diversos estados).
Então se os preços dos produtos europeus são justos por que motivo não é possível manter um crescimento económico saudável em todo o seu espaço geográfico? Simplesmente porque os mesmos bens produzidos noutros países são mais baratos!
Então a Europa está “obrigada” a aguardar pelo desenvolvimento dos restantes países para poder, ela própria, ter crescimento económico e dar emprego aos seus cidadãos? Se politicamente nada for feito, sim, a isso está “condenada”!
Porém não podemos esquecer que as trocas internacionais são negócios condicionados pelo poder político. Assim, e uma vez que os países emergentes (ainda) precisam do mercado consumidor europeu para se desenvolverem, existe uma série de possibilidades a ser negociadas. Com discernimento, vontade e capacidade política negocial há sempre saídas (para além da guerra, evidentemente)!

De Frederico Silva Leal a 25.06.2013 às 14:52

Subscrevo o que aqui foi escrito.
Provavelmente a melhor solução para Portugal neste momento (não saindo do Euro), seria assumirmos as políticas económicas praticadas pelos países em vias de desenvolvimento, ou seja, prócurarmos a especialização de poucos bens em que tenhamos vantagem comparativa(economias de escala), procurarmos vantagem pelo baixo preço dos produtos, e por fim um apoio do estado para as índustrias até que estas se tornem compatitivas nos mercados internacionais. É de bom grado que recebemos comentários tão pertinentes e conhecedores como este.
Deixo aqui já o convite para ir acompanhando o nosso Blog á medida que novos artigos forem aparecendo.

De Arlindo Castro a 25.06.2013 às 15:03

1/2 - Sobre a saída do Euro
Quando o Governo de um país independente, com moeda própria, sente sérias dificuldades na colocação da sua produção no exterior (exportação), aumentando o déficit da sua balança comercial (dívida externa), existe uma forte tendência para tentar incrementar a competitividade da sua produção no exterior, com o objectivo de aumentar a produção nacional. Para esse efeito, lança mão de um artifício financeiro rectificando, em baixa, a relação do valor da moeda nacional com o das moedas dos outros países – desvalorização da moeda.
Um exemplo:
1º – 1 Moeda A (país A) tem o mesmo valor que 1 Moeda B (país B)
2º – o preço do bem X, produzido no país A é de 100 Moedas A (ou 100 Moedas B, por ser de igual valor a relação entre as moedas)
3º – o país A desvaloriza a sua moeda em 20%
4º – o preço do bem X passa a ser de 100 Moedas A no país A e de 80 Moedas B no país B
Tratando-se de uma economia aberta, esta medida de política monetária tem efeitos imediatos na economia desse país, por força das suas trocas comerciais com o estrangeiro:
- ao diminuir o preço dos seus bens em moeda estrangeira, favorece a concorrência internacional dos seus produtos – possibilidade de aumento das exportações
- ao aumentar o preço (em moeda nacional) dos produtos importados, favorece a concorrência interna dos seu produtos – possibilidade de diminuição das importações
As reais vantagens imediatas desta política, por induzirem a possibilidade de aumento da produção do país A e consequentemente do emprego, são todavia rapidamente absorvidas pelo mercado.
Os produtores exportadores do país A, que utilizam a moeda B nas suas facturações, são quase imediatamente “obrigados” a perder esta mais-valia, obtida exclusivamente pela desvalorização da moeda, por não possuírem sustentação económica justificativa para a manutenção do novo preço praticado e baixam os seus preços de facturação (em moeda B), renivelando a respectiva competitividade à data anterior à desvalorização ocorrida, e, consequentemente, o valor da produção interna medido em moeda estrangeira.
Os produtores exportadores do país A, que utilizam a moeda A nas suas exportações, adquirem imediatamente competitividade no preço dos seus produtos, mas também são compelidos a corrigir o seu preço de exportação, aumentando-o, de acordo com a proporcionalidade de incorporação de matérias-primas nacionais ou importadas, uma vez que estas aumentaram de preço por efeito da desvalorização ocorrida, perdendo sempre a sua competitividade nos mercados externos. Uma vez que a correcção do preço de venda decorreu do aumento de valor das matérias-primas importadas, também aqui o valor da produção interna decresce quando medido em moeda estrangeira.
Os produtores para o mercado interno, cujas matérias-primas utilizadas no processo de fabrico sejam absolutamente nacionais, adquirem imediatamente competitividade e podem fazer crescer a sua produção, para substituição de importações, agora mais caras pela desvalorização monetária.
Os produtores para o mercado interno, cujas matérias-primas utilizadas no processo de fabrico sejam importadas, verão a sua competitividade alterada de acordo com a proporcionalidade do valor da incorporação dessas matérias-primas no valor do produto acabado – quanto maior for essa percentagem menor será a competitividade conseguida.
Na prática e como atrás demonstrado, a desvalorização monetária reduz o valor da produção interna, medida em moeda estrangeira, e induz ao aumento de preços no mercado interno (inflação), quer directamente nas importações para o consumo quer indirectamente pelas importações das matérias-primas, sendo a principal causadora das lutas sociais para reposição do poder de compra dos consumidores. Esta reposição do poder de compra corporiza um aumento dos custos de produção e, consequentemente para o reequilíbrio da competitividade, em nova desvalorização monetária.
Por outro lado a desvalorização monetária tem reflexos imediatos na dívida do país ao exterior, não só quanto ao valor nominal, expresso em moeda nacional, mas também quanto à sua relação com a produção de riqueza do país.

De Arlindo Castro a 25.06.2013 às 15:05

2/2 - Sobre a saída do euro
No nosso exemplo:
1º – 1 Moeda A (país A) tem o mesmo valor que 1 Moeda B (país B)
2º – o valor da dívida externa do país A é de 100 Moedas A (ou 100 Moedas B, por ser de igual valor a relação entre as moedas)
3º – o país A desvaloriza a sua moeda em 20%
4º – o valor da dívida externa do país A passa a ser de 125 Moedas A, apesar de continuar a ser de 100 Moedas B
Ou seja, a desvalorização monetária não é, em si, uma solução definitiva para nenhum país, mas tão só uma solução provisória para ajustar o comportamento duma economia entre datas, na expectativa, moralmente condenável, de que as outras economias venham a passar pelo mesmo. É, por isso mesmo – ajustamento de valor entre duas datas, uma verdadeira medida financeira.
Pelos motivos invocados, a desvalorização da moeda é economicamente considerada um “ciclo vicioso”, em forma de espiral recessiva, uma vez que não consegue atingir os objectivos pretendidos: relançar a economia e equilibrar as contas com o exterior.
A actualidade desta análise prende-se com o facto de os nossos governantes, não por não as subscreverem integralmente mas por assumida impotência no controlo do valor da moeda utilizada, pretenderem levar a cabo medidas, que apelidam de “desvalorização fiscal” , mas que mais não são do que exclusivamente financeiras. Na prática, como acima explicado, leva aos mesmos resultados que a desvalorização da moeda!
Não pretendendo ser injusto, apelidando-os de corruptos ou paus mandados (“palhaços”?), é nossa obrigação cívica chamar-lhes a atenção para a realidade e para a irresponsabilidade desta teimosia. Redefenindo os objectivos: a política não é a arte de eternizar os mesmos cidadãos (sejam de um, de dois ou, mesmo, de três partidos) à frente da governação de um país! Todos reconhecemos, como eles próprios, os custos inerentes a esta “manutenção de posições” e, sobretudo, a falta de qualidade dos serviços que, no exercício dessas funções, à comunidade prestam!
Na “verdadeira” política, os cidadãos eleitos pugnam, com todas as suas capacidades, pela melhoria da qualidade de vida dos seus concidadãos, protegendo os mais desfavorecidos, quer por causas pontuais quer definitivas, e assegurando condições de igualdade aos restantes no exercício das suas actividades económicas, sociais e políticas.
Estas medidas de política financeira caseira “cheiram” ao longe a uma desresponsabilização da função política, pretensamente atirando a responsabilidade para terceiros – os mercados – ou para o futuro. Não é disto que a Europa precisa. Não sendo messiânico, permito-me relembrar o papel histórico de Roosevelt no desenvolvimento económico dos USA!
É necessário relançar a actividade económica para criar emprego e, com isso, permitir a subsistência e a sobrevivência dos eleitores, melhorando mesmo as suas condições de vida. No mundo económico actual as desigualdades remuneratórias são abissais, assim como as desigualdades no consumo. Todos reconhecemos, independentemente do país em que vivemos, que a rectificação dessas desigualdades leva tempo, mas também deveremos estar conscientes que é necessário dar passos nesse sentido: encetar esse caminho.
Se foi possível, num passado recente, tomar medidas políticas para defesa dos interesses económicos de cada país pela criação de barreiras alfandegárias às importações, criar zonas económicas entre países para pacificação e harmonização do seu desenvolvimento colectivo, celebrar acordos de livre comércio para permitir exportar os seus bens, reconhecendo-lhe a sua “origem”, e defender a globalização como forma de assegurar o desenvolvimento do comércio mundial, por que motivo não é possível tomar medidas políticas tendentes a um equilíbrio económico a nível do planeta?
Os países emergentes, com reduzidos custos de produção e “desprezando” o ambiente, precisam dos países de maior consumo para se poderem continuar a desenvolver e estes, com custos de produção mais elevados e mais respeitadores do ambiente, precisam de mercados onde possam colocar a sua produção a preços compensatórios. Neste cenário não é possível encontrar plataformas de entendimento político? Não serão estas plataformas mais interessantes para ambas as partes do que a guerra que se anuncia?

De Frederico Silva Leal a 25.06.2013 às 20:24

Sem dúvida.
O ídeal seria Portugal não estar no euro, de forma a poder aplicar as suas próprias políticas monetárias, mas assim não sendo, a Europa teria que actuar como uma só, mas para que tal fosse possível a Alemanha teria obrigatóriamente de sair (perdia-se um grande credor, mas ganhariamos outros instrumentos).
De qualquer forma, Portugal nunca poderia saír do Euro a não ser de forma ílicita (à imagem do que fez a Islândia), pois como referiu, e bem, se a moeda fosse desvalorizada, seria ainda mais!! impossivel conseguir pagar a dívida aos nossos credores.

De Rosa Leal a 29.06.2013 às 15:53

Parabéns pelo artigo.
Descreve de forma objectiva, sucinta e abrangente o cenário atual do país em que vivemos.
Concordo em absoluto.
Continua;)!
Grande beijinho

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